Postado no Maio 12, 2008 de mneto
Estou aqui pensando nessa história de prêmios. É manjado dizer que é ridículo o mercado se auto-premiar…isso todo mundo já sabe. Mas fico pensando o que diríamos se dentistas escolhessem a melhor obturação do ano, no Clube dos Dentistas de São Paulo. Ou se existisse um Festival de Cannes Odontológico, com todo aquele glamour. Essa talvez seja a hora que nosso mercado mais entrega a vaidade e o inegável desejo por celebrizar-se. Ainda mais ridículo eu falar disso. Nesse ano participo de três júris, inclusive o de Cannes. Não dá para posar de blazê. Nem para dizer que não dou importância nenhuma para prêmios. Aí fiquei pensando, por que ainda acho que prêmios são importantes? Minha resposta mais honesta é essa: prêmios são importantes, porque nosso ofício não é uma técnica. É subjetivo demais saber o que é bom e o que não é (lembram de Noite Americana, do Truffault? Qual o revolver ideal para a cena fina? Heim? Heim?). Nah. Nosso ofício não é arte. Mas não digam que é apenas técnica como uma…hmmm coroa de pré-molar. Então, quando o mercado se junta e avalia, a sabedoria do grupo (que quase sempre resulta em distorções, a tal unanimidade burra), neste caso específico serve para indicar o que foi feito de bom, o que não vale mais, o que deixou de ser original. Estou certo que essa era a intenção das primeiras premiações. Valorizar o ofício. Por isso o texto do Marcello Serpa, para o grupo de jurados deste ano, foi importante. Isso dito, pessoalmente, preferia ir pra WWDC da Apple, que será no mesmo período de Cannes.
Arquivado em: NCPM | 12 Comentários »
Postado no Maio 12, 2008 de mneto
Feriado.
Pela frente, além do trânsito, quatro dias trancado num hotel com a perspectiva terrível de fazer sol e eu ser obrigado a ficar longe do meu macbook.
Venho me preparando para este dia já há muitos anos.
No meu kit de sobrevivência de feriados tenho um boné, protetor solar 50 e um iPhone configurado para fazer o papel de seu irmão mais velho.
Com um pouco de sorte, mesmo da piscina serei capaz de receber e enviar e-mails, blogar, twitar, msnar e até mesmo ler um bom livro (de papel).
Tudo graças ao milagre do Mobile.
Mas nem em meus piores pesadelos poderia prever o que vinha pela frente.
Minha derrocada começou com o WiFi do hotel.
Já notou que ninguém nunca sabe a senha do WiFi do hotel?
- Uaifai? não senhor. Aqui não temos isso, não.
- Como não, querida, to vendo aqui o nome da rede.
Fade out. Fade in.
Senha na mão, descubro que o único lugar onde o sinal é forte o suficiente, é na sala de brinquedos.
Então estou eu, sentado num hipopótamo de plástico, tentando baixar e-mails.
Um garoto de 6 anos está me encarando.
Acho que quer o meu lugar, mas não pretendo ceder.
Ele quebra o gelo.
- É um iPhone?
- É
- 16 ou 8?
- 8
Ele me dá as costas e vai embora, desinteressado.
Na piscina, não tem EDGE. Nem WiFi.
Só tem gente, sol e água.
Um horror.
Ser Mobile no terceiro mundo não é tarefa fácil.
Arquivado em: NCPM | 1 Comentário »
Postado no Abril 22, 2008 de mneto
Não falta mais nada. A mãe da menina, ontem, foi num show pela paz. Não sei porque fizeram o show. Espero que não tenha sido por causa da pobre Isabela. Afinal, precisamos mesmo de manifestações pela paz, mas não me parece que o assassinato da menina tenha a ver com a violência que nos cerca há anos. Foi apenas mais um desses atos de desespero que acontecem aqui e em qualquer país. Um maluco - ou dois - assassinos por natureza, que um dia, afloram. Um Columbine brasileiro. Contardo Caligaris definiu de maneira interessante: o assunto nos chama a atenção porque estampa na nossa cara que qualquer um de nós seria capaz de uma piração dessas. Mas não tem nada a ver com o clima de violência que se instalou no país há uns vinte anos. Alias, violência por violência, a própria polícia tem praticado absurdos ao transportar os acusados. Ou tem alguma explicação o fato de não bloquearem a quadra inteira para que o casal possa entrar no carro da polícia? Numa foto da Folha da semana passada, até um sujeito fantasiado de Bin Laden aguardava sua chance para atirar pedras no camburão. Se a quadra fosse interditada, não seria tudo mais simples? Não faríamos, nós a sociedade, representados pelos policiais, um papel mais civilizado? O mesmo em frente da delegacia. É preciso mesmo policiais do GOE, ostentando suas máscaras? Enfim, continuam todos querendo se promover. Advogados, promotores, polícia, o avô e receio que agora até a mãe e - depois da entrevista no Fantástico - os acusados. Enfim, a celebrização atingiu todos os envolvidos. Inclusive o tio, que aproveitou o show de ontem para - não posso acreditar - tirar uma foto junto com a Xuxa. Estão todos loucos.
.
Em algum lugar aqui do NCPM já falei sobre ação afirmativa. O sistema de quotas é nefasto. Só cria preconceitos. Se tínhamos negros carentes que merecem vagas impostas, agora temos brancos ainda mais carentes. Pobre do sujeito branco, que estudou e se superou em escolas públicas e, por seu esforço, foi melhor que os negros na mesma condição que a sua. Esse não tem nenhuma chance mesmo. Pobre do sujeito que fez tudo quase bem e que perdeu sua vaga para alguém ainda menos preparado. Pobre do sujeito que ganha o direito de se formar no ensino superior sem ter uma forte base de ensino médio. Pena do sujeito que ganha sua vaga imposta e terá que sofrer o preconceito dos que sabem que ele não passou pela mesma provação. Diogo Mainardi fala disso em sua coluna na Veja dessa semana. A solução não é mitificar a Universidade. Não é resolver o problema do final para o começo, criando uma infinidade de novos preconceitos. A solução só se dará quando as classes menos privilegiadas tiverem educação fundamental de qualidade. Alias, a solução não só para esse como para tantos outros problemas.
Arquivado em: NCPM | 2 Comentários »
Postado no Abril 14, 2008 de mneto
Abro a Folha Ilustrada e dou de cara com o título: Ana agora procura um homem. Em letras garrafais, como diriam antigamente. O título refere-se ao fato de que a cantora e compositora, Ana Carolina, parece ter dado uma pausa na sua opção pelo homosexualismo e decidiu que agora quer um parceiro sexual do sexo oposto. A quem interessa este assunto? Quanta gente lê a Folha? Um milhão de leitores? Será que é realmente relevante este fato, a ponto de ocupar não apenas o texto, mas toda a página, com direito, inclusive, a foto? Me ocorre que a opção sexual continua sendo não só um tabú como precisa ser exorcizado. A matéria, em última análise, faz isso. É como que uma catarse pública da jornalista Mônica Bergamo. Ao informar tão bombasticamente a nova opção sexual de Ana Carolina, Mônica redime todos os seus [e os nossos?] preconceitos. É como se gritasse com alívio e orgulho: “viram? ela desistiu!”. A Folha virou isso. Suas páginas estão repletas de textos menores, de jornalistas idem. Barbara Gancia, Mônica Bergamo e até o idolatrado José Simão. Este último, com suas piadas fáceis e bordões óbvios, tornou-se a estrela maior de um jornalismo pequeno e pouco esclarecedor. Mas ai de quem falar mal dele. Pega mal. Como falar que o Jô Soares se veste ridiculamente. Não pode. São as lendas da nossa mídia: Jô Soares é elegante e José Simão é inteligente. O fato é que a Folha está um lixo. Cada vez com menos gente que presta. Alias, ultimamente, de bom mesmo só as charges do Angeli.
Arquivado em: NCPM | 4 Comentários »
Postado no Abril 12, 2008 de mneto
Não me importa muito quem matou essa menina. Se foram os pais, se foi alguém de fora. O que importa mais é como essa história se transformou numa enorme novela, numa gigantesca peça publicitária para promover promotor, advogados, jornais, polícia, etc. A imprensa fala dos Peritos com orgulho. Mostram nosso CSI trabalhando, com luvas e aventais. O promotor, expõe o caso em detalhes, revela sua estratégia, não se importa em manter certa discrição. A Globo gasta um bloco inteiro no JN, com animações e gráficos. A menina aparece em fotos e vídeos. Pais, primos, vizinhos, todo mundo vira celebridade. Todo mundo quer saber quem matou. Um juíz, menos exposto ao espetáculo, solta o casal. Milhares de pessoas querem ver os bandidos sendo soltos. Gritam que são assassinos, ofensas. O casal é levado para fazer exame de corpo-delito, como é praxe nesses casos. Eles são escoltados por policiais. Três policiais escoltam a madrasta. Usam uma máscara, cobrindo o rosto. Vendo as máscaras, me pergunto porque um policial esconde o rosto ao escoltar um suspeito. Me ocorre que nessa história, ninguém sabe que são os bandidos. E com policiais com mácaras, ninguém sabe quem são os mocinhos, também.
Arquivado em: NCPM | 3 Comentários »
Postado no Abril 10, 2008 de mneto
Eu já tinha ouvido falar muito. Mas nunca havia conferido o site da SportingBet, o site de apostas em esportes. Assustador. Tudo em português, tudo bem explicadinho. Tudo feito para você deixar até as cuecas. É a prova, a evidência, de que vivemos num mundo 2.0, como regras 1.0. Pior que isso. Diante do SportingBet nossa Constituição é beta. Qualquer brasileiro pode jogar, apostar, no que quiser. Faz os cassinos clandestinos e os bingos ilegais parecerem uma brincadeira de crianças
Arquivado em: NCPM | Nenhum comentário »
Postado no Abril 8, 2008 de mneto
Quando eu era pequeno, aprendi a falar Rorâima. Assim, com â. Atualmente, a TV fala Roráima. Mas não é só isso. Quando eu era pequeno, eu falava, quando precisava, “Tibet”, assim com t mudo. E agora vejo que todo mundo fala Tibeti, assim com ti. Não acho que isso mude muita coisa. Roraima continua longe para caramba. O Tibet também. Roraima continua soando um lugar inóspito e o Tibet continua oprimidamente pitoresco, se é que isso é possível. O curioso é que não existe um lugar onde você pode checar o que foi que você aprendeu que não vale mais. Você tem que descobrir on-the-fly. De um dia para outro, não é mais como era antes. E um monte de coisas mudou desde o tempo que eu ia pra escola. Um caso clássico é o fato de que Cabral não chegou aqui por acaso. Já tinha ouvido falar que não era mais isso que ensinavam na escola, mas estava curioso para conhecer a nova versão. Outro dia, estudando História com minha filha, descobri como foi a mudança. Foi Lulistica. Ensinam que Cabral saiu de Portugal com destino à India pela rota da Africa e então desviou o caminho para encontrar as terras descobertas por Colombo. Ou seja, não explicam nada. Nah. No fundo não me importa porque Cabral chegou aqui. Nem a pronúncia certa de Roraima, ou o Tibet. Só não gosto dessa insegurança com aquilo que aprendi. Compreendo que o conhecimento seja dinâmico. Mas eu não sou.
Arquivado em: NCPM | 3 Comentários »
Postado no Abril 2, 2008 de mneto
“Você não pode perguntar ao consumidor o que ele quer, se você pretende fazer produtos inovadores”. Com essa frase, Steve Jobs explica porque a Apple não faz pesquisas. Se eu vou criar, vou ter que surpreender. Serve para a publicidade também. Entrar no radar, não é exatamente isso? Pegar o sujeito desprevenido, com algo inesperado. De que adianta, então, pesquisar? Vou mais longe: eu nunca li um bom livro sobre processo criativo. Alias, nunca li nenhum livro sobre o processo criativo. Ouvi dizer, por cima, que existem algumas técnicas, para arrancar do cérebro, sinapses criativas. Brainstorm, reverse brainstorm, os chapéus. Sei lá. Ignoro todas. No passado tinha medo de assumir. Mas agora, pra que continuar escondendo? Não acho que vou muito mais longe do que já fui na minha carreira e confesso, sem falsa modesta, que estou feliz onde cheguei. Então afirmo que você pode ser um profissional de criação sem conhecer estas besteiras. E já que esta é uma hora de confessar, tenho que dizer que nunca vi uma única boa idéia ser criada num power point. Explico: uma vez, numa convenção de uma grande agência na qual trabalhei, em Miami, passamos dois dias assistindo a apresentações de power point. Cansado, perguntei ao meu diretor de criação “escuta…e quando é que vamos ver filmes, heim?”. Ele respondeu, triste, “Não vamos. Publicidade não se faz mais com filmes. Se faz com Power Point”. É verdade. Outro dia, na agência, recebi a visita de 7 alunos da FAAP. Só um queria ser criativo. Quatro queriam ser Planejamento. E power point é a arma de um bom planejamento. Hoje, ser planejamento é decidir a campanha. É decidir o que a criação vai criar, antes mesmo do primeiro rough. Uma pena isso. É pior, ainda, do que a Era das Pesquisas, onde você perguntava ao consumidor como ele preferia ser surpreendido. Uma pena porque o Planejamento não usa só o power point, mas também usa a própria pesquisa. Estamos, pois, cercados. Sou de uma época em que a Comunicação, nas faculdades, não era muito disputada. Na verdade, ia trabalhar em Propaganda quem tinha preguiça de estudar Química, Física, Biologia. Minha geração foi trabalhar em Propaganda exatamente porque não precisava ver as tabelas e gráficos que o Planejamento usa para embasar seus dogmas. Fomos trabalhar em Propaganda, porque eramos bons de papo-de-bar, os tais brainstorm. Nesses papos, surgiam idéias engraçadas, que faziam o garçom ou a mesa do lado rir. Papos que, se veiculados, poderiam vender produtos. É a velha e boa risada espontânea [onde foi parar?], que tem feito tanta falta, na televisão e na Criação das agências. Definitivamente não da para criar piadas no power point.
Arquivado em: NCPM | 39 Comentários »
Postado no Março 28, 2008 de mneto
A Almap, na década de 80, ficava na Av. Paulista, no Edifício Senzala. Aqui perto da agência tem o Edifício Quilombo. E tem a maior ironia de todas. A passarela Marcelo Fromer, na Av. Juscelino Kubitschek. Fromer morreu atropelado em junho de 2001, quando corria pela Avenida Cidade Jardim. Não sei vocês, mas tenho a sensação que é o mesmo sujeito que faz essas gracinhas.
Arquivado em: NCPM | 1 Comentário »
Postado no Março 13, 2008 de mneto
Eu gosto de dias de chuva. De chuvisco. Dias cinza. Dias assim
não impõem nenhum compromisso. Por outro lado, dias de sol obrigam a sair de casa. A ver o mundo. A fazer alguma coisa memorável. Como se não fosse memorável ficar jogado na cama vendo um vídeo. Ou pegar uma estrada sob tempestade.
.
Contardo Caligaris fala hoje sobre a crise com a Espanha. Cita Focault. Uma boa idéia, essa de que a globalização, o tráfego de dinheiros, criou restrições para o tráfego de pessoas. Cada um defendendo suas fronteiras de turistas “indesejáveis”. O sem-destinos. Me ocorre que existem diversos níveis restritivos, que nos impedem de viver uma vida de aventuras. Não apenas as fronteiras físicas. Outros limites impedem de simplesmente colocar uma mochila nas costas e seguir viagem. O primeiro é o individual, o moral. Depois vem o familiar. Aí vem o profissional. E finalmente, o das fronteiras. Todos esses limites dificultam a sua saída e sua entrada, se não houver uma boa justificativa, para uma vida menos ordinária.
Ainda estamos falando de viagens?
Arquivado em: NCPM | 3 Comentários »