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Desde que li o artigo de Luciano Huck na semana passada, na Folha de São Paulo [Pensamentos Quase Póstumos, Folha de São Paulo, 1 de outubro página 3], venho assistindo, com absoluta perplexidade às reações contrárias dos leitores. Até mesmo Zeca Baleiro atirou suas pedras no marido da Angélica. Confesso que, quando comecei a ler o texto, já sabendo quem o assinava, me armei de todo preconceito possível. Mas ao final da leitura, estava surpreso. É evidente que o motivo do roubo é futil e que o apresentador claramente tem uma visão de si mesmo distorcida, afinal, como ser diferente? Mimado pela mídia, é difícil se ver como um cidadão comum. Mas fora isso, o texto pareceu um grito silencioso de um brasileiro, como tantos outros, revoltado com a situação de insegurança absolutamente insustentável que lhe é imposta por um governo inapto e corrupto. Um texto, em sua argumentação, equilibrado e de bom senso. As reações, evidente, vieram dos chiitas da periferia, que querem provar que suas vidas são ainda mais infelizes. Um Rolex, para esses que protestam, deixa de ser um bem inconcebivelmente subtraído de um cidadão e é apenas uma metafora, apenas uma alegoria para analogias óbvias ["quantas casas esse Rolex compraria?"]. Assim, a discussão é desviada do foco principal proposto por Huck [a situação de barbárie que estamos expostos, ricos e pobres] e transforma-se num campeonato para ver quem sofre mais, elite ou oprimidos. Seu desabafo deixa de ser objetivamente um chamado à cidadania e cada um procura sua maneira de desqualificar não a argumentação, mas o direito de argumentar do menino rico. Segundo esses, elite não pode ser vítima enquanto houver um faminto no Brasil. A Folha, sabendo que polêmica vende, se apressa em imprimir as mais estapafúrdias opiniões. Pontos-de-vista tendenciosos e viciados, com a mais tacanha e superada argumentação esquerdista. Finalmente, hoje, publica mais um texto medíocre de Ferréz, o pouco letrado autor de Capão Pecado, a obra de cabeceira de todo motoboy. Publica no mesmo espaço, quase como direito-de-resposta, uma crônica que não tem fundamento nenhum na realidade nua e crua do assalto de Huck. Uma ficção que pressupõe a vida que deveria ter o tal assaltante. Um texto ficional, como direito-de-resposta a um desabafo real. Confesso que não morro de amores por Luciano Huck. Mas seu texto faz sentido. As cartas dos leitores não são dignas do desabafo deste brasileiro e o texto de Ferréz é uma piada de mau-gosto da Folha com qualquer leitor sério.
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Realmente há algo de errado em um país que passa
a semana inteira discutindo o assalto a uma celebridade
e um filme como “Tropa de Elite”.